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IMPORTÂNCIA DA PROCRIAÇÃO
Verificamos, ainda nos dias de hoje, um
certo desdenho e subjugo dos líderes sacerdotais
para com os seus filhos espirituais, ou até mesmo
com os dos outros, os quais são denominados ou classificados,
“equivocadamente”, por Ìyawó.
O fato é que alguns pontos precisam ser esclarecidos
e refletidos para que haja, diante de entendimentos, uma
valorização da cultura e religiosidade de
matrizes africanas e afro-brasileiras, na busca da sua preservação
e engrandecimento, não só, quantitativamente,
como também, e principalmente, qualitativamente.
Comecemos por entender o que vem a ser Òrìsà.
Um ancestral divinizado que nasceu, viveu e morreu como
qualquer um de nós. Porém, em vida, mantinha
o controle sobre certos elementos da natureza, através
da força vital do criador. “O poder do ancestral-orixá,
após a sua morte, é manifestado momentaneamente
em um de seus descendentes através do fenômeno
da possessão”, ou melhor, da incorporação.
“Esse ser humano, escolhido pelo Òrìsà,
um de seus descendentes é chamado seu elégùn,
aquele que tem o privilégio de ser ‘montado’,
gùn, por ele. Tornando-se o veículo que permite
ao Òrìsà voltar a terra para saudar
e receber as provas de respeito de seus descendentes que
o evocaram”. Verger – Orixás - p. 19
Segundo Verger, os elégùn geralmente são
chamados ìyawóòrìsà,
significando noiva, esposa ou mulher do Òrìsà,
seja ele homem ou mulher, evocando a idéia de sujeição
e de dependência, como antigamente as mulheres eram
aos homens. Todavia, esta sujeição a que nos
referimos é ao ancestral-orixá.
Assim sendo, de acordo com a tradição Yorubá,
o que hoje chamamos de Òrìsà (Ogún,
Òsoosì, Obalúwayé, Sàngó,
Oya, etc.) são na realidade ancestrais que foram
divinizados pelos seus descendentes e pelos seus seguidores,
seja na qualidade de Onílè/Senhor da Terra
(senhor de muitos filhos e de vasto território) ou
Ìdílé/Importante personalidade da família
(aquele que apesar de não ter filhos ou terras era
considerado pelo seu povo como benfeitor).
No Brasil este processo de povoamento da casa de culto se
dá de forma diferente, quer seja, através
da iniciação de pessoas de diferentes segmentos
e níveis sociais, diante de diversos fatores de ambientação
social, o que nos leva a repesá-los.
Em vários momentos das nossas orações
e cânticos, mesmo que inconscientemente, suplicamos
por fertilidade e filhos, a fim de que possamos ser considerados
por Elédùmarè como um Onílè
e, desta forma, alcançarmos a eternidade, sendo divinizado
pelos nossos descendentes. Daí a importância
da procriação iniciática.
No terceiro milênio, precisamos entender que os tempos
mudaram e que qualquer ser humano, a princípio, precisa
ser tratado com respeito.
Um filho gozando de satisfação pessoa (àláfíà),
propiciará o engrandecimento do àse e, certamente,
irá divinizar-nos no futuro.
Qualquer religião surge a partir da cultura de um
povo, por isto precisamos ter adeptos esclarecidos. É
tempo de por que e pra que, pois só desta forma alguém
pode defender e difundir aquilo em que acredita. Não
se pode mais aceitar, nos dias de hoje as desculpas de que
“ainda não está na sua hora de saber”.
“Você ainda é um Ìyawó”.
Um outro fator de suma importância é o entendimento
de que o àse só se eterniza “ou morre”
a partir do falecimento do seu fundador. Estão aí
os exemplos de tantas casas que já nasceram e morreram
sem que sequer lembremos o nome do sacerdote.
Enfim, o respeito ao ser humano e a preservação
das tradições culturais afro-brasileiras é
o que se discute nos dias de hoje.
Professor
e Olóyè Marcelo Monteiro Odearaofa, Presidente
Fundador do CETRAB – Centro de Tradições
Afro-Brasileiras – entidade beneficente de assistência
sócio cultural, sem fins lucrativos e Sacerdote Supremo
do Àse Ìdásilè Ode.
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